O vento para nós, mulheres da religião de Matrizes Africana, é sagrado. É o vento de Oyá. E dentro desse sagrado: vento – nos deixamos voar.
Assim como o vento desafia a gravidade, ele nos faz fortes para levitar entre as barreiras impostas do racismo, pela formação política, social e ideológica que mantém o projeto predatório de Estado. E assim como o vôo do vento, cotidianamente precisamos driblar, como a leveza de exímias zagueiras, nos defendemos, contando com a própria sorte.
Enfrentamos diariamente, as insistentes artemanhas do racismo que é estrutura e sedimenta as violências e violações civis e sociais para as mulheres, do negacionismo interseccional de raça, gênero e sexualidade, do fomento à LGBTQIfobia, utilizados como meio para desmobilização.
É fundamental, portanto, estar consciente da armadilha maniqueísta que busca anular nossa propriedade de si, nos fazendo perder nossa própria identidade. Ter um senso de pertencimento é a força motriz que nos capacita a reconhecer como ficamos vulneráveis diante das estruturas coloniais opressivas. É com essa premissa em mente que as mulheres negras se esforçam ao máximo para resistir e não sucumbir.
Diariamente recebemos informações ou nos deparamos com notícias que chegam de todas as formas sobre o quanto as mulheres e, em especial, as mulheres negras, indígenas e trans estão sendo vilipendiadas e assassinadas por diferentes ordens na sociedade. A presença feminina tem sido constantemente ameaçada e desrespeitada nos diversos espaços políticos, à moda brasileira.
O que permite aos homens, e, em sua maioria, homens brancos, proferir ameaças ou violências verbais e morais contra as mulheres que são suas colegas, ocupando o mesmo espaço de poder profissional ou social que eles? Além disso, por que a presença dessas mulheres incomoda tanto esses homens? Qual fator influencia tal postura? Essas perguntas trazem à tona uma discussão para a qual a problemática já ensaia respostas. Se não for a misoginia, é o ódio latente em relação à presença física de mulheres negras, indígenas e transgêneras, bem como à exposição do feminino diante desses cidadãos.
Os direitos garantidos pela Constituição brasileira estabelecem que todos são iguais perante a lei e têm direitos sem qualquer distinção, recebendo igual proteção perante essa mesma lei, sem discriminação. Portanto, o que vivenciamos e testemunhamos vai além dos limites das legislações; são construções sociais com raízes em sistemas escravistas, machistas, patriarcais e corporativistas, que continuam a legitimar ininterruptamente o domínio do MACHO sobre as fêmeas afrodiaspóricas, que são levadas a acreditar que seu lugar deve ser determinado por outros.
Entender que para nós, somente o ajuntamento de forças, nos caminhos guiados pelas diversas formas que o vento venta, reafirmaremos os nossos lugares, executaremos nosso combinado com a vida, de não morremos sob nenhuma forma de morte, sejam elas as simbólicas e ou, as executadas.
Com a dança dos ventos e suas variações. Temos ventania dentro!
